A modos de epílogo

A lei é a ferramenta do Estado/Capital para defender a ordem existente a fim de que uns domínem e explorem outros neste miserável e podre mundo organizado pelas idéias do domínio. Pretender que as normas daqueles que nos prendem nos sejam alguma vez benéficas, é digno de suicídio…

Quem aprisiona pessoas, ainda por cima em condições extremamente cruéis e sujeitas a engrossar as estatísticas da mortandade, não pode esperar menos do que revoltas sistemáticas, sejam elas quais forem.

Esses momentos de protesto, com as suas reivindicações, esses momentos de resistência à subvida, essa desobediência à gestão da administração da morte que é a prisão -centro de extermínio- ,são momentos que consideramos de grande valor humano!…

A revolta é sempre nobre, bela e fascinante quando o sentimento de dignidade e o desejo de viver é superior ao medo à repressão. Por isto, nós, que estamos na ”prisão sem muros” e almejamos um mundo sem grilhetas visíveis e invisíveis, não podemos deixar de ser solidários com todas as revoltas ocorridas nas prisões: locais de uma bestialidade extrema onde as pessoas são expostas à arbitrariedadade dos esbirros; onde reina o nepotismo, o favoritismo pessoal, as escandalosas discriminações; onde a solidariedade está criminalizada; onde se pratica a técnica inquisitorial, jaula cruel e sábia na arte de punir e de castigar, de infligir suplícios, de fazer sofrer (para além do arsenal horroroso de castigos “normais” em húmidas e gélidas celas disciplinares, regime 111º e outros); onde se vê o sofrimento sistemático e o intento premeditado de aniquilamento do fisíco, da psique, da personalidade e da identidade do indivíduo sob o falso discurso reabilitador e ressocializador; onde se “vive” no aborrecimento, no isolamento, na solidão, na incerteza, em ansiedade, na atroz agonia, em total estado de indefenso, no medo, no desespero, em stress permanente, em taquicardia; onde se é submetido à incubação de germes num viveiro de doenças infecto-contagiosas que levam ao extermínio, onde a vida está sujeita, com cálculo de probabilidades, ao risco elevadíssimo de contágio mortal; onde se vê, sente e pressente o horror da morte a aproximar-se; onde se assiste à morte lenta e dolorosa de seres condenados à absoluta ferocidade da indiferença e do ostracismo; onde se adquirem fobias, psicoses, neuroses, esquizo-frenia; onde se fica apático,depressivo; onde o indivíduo constantemente é induzido ao suicídio!… e um longo etc..

A prisão, como mega-desumana instituição -elemento repressivo de controle social-  representa o último reduto do mecanismo domesticador do poder, destinado aos excluídos, aos subversivos, a todos os que de alguma forma incomodam o domínio e aos que molestam socialmente. A prisão é o indicador dos erros do sistema, e humanizá-la é impossível devido à sua própria natureza. Apenas poderemos dizer que algumas reformas poderão torná-la eventualmente menos cruel. A prisão é intrínsecamente inimiga da vida e a sua existência põe à vista o sistema que a construiu, e elucida-nos sobre a sua “humanidade”.

Não pretendemos  mitificar os presos mas sim manifestar o nosso profundo repúdio a tão terrível instituição bem como criticar as teorias -defendidas por esta hipócrita e civilizada sociedade-prisão- que afirmam ser impossível a vida social sem a existência desta execrável instituição.

Queremos um mundo sem prisões e tal é exequível, mas, para tal, obviamente, é necessário romper com a domesticação, pensar pela própria cabeça, subverter as mentes anquilosadas pelos germes do domínio e lutar contra o existente para que ocorra uma mudança radical que vá à raiz dos problemas sociais. O que não é admissível é este sistema com todas as suas guerras, ecocídio, exploração do homem pelo homem, o roubo das nossas vidas, desigualdades sociais criadoras de fome e miséria, e outras imensas barbaridades incluída a prisão.

Lutar pelo fim das prisões implica lutar pelo fim deste putrefacto sistema em geral, que constrói as prisões.

Que esta publicação sirva pois para a contribuição da reflexão e o respectivo combate pela reapropiação das nossas vidas e consequentemente por um mundo sem prisões.

Pelo fim de todas as prisões!

Terminamos com um elucidativo excerto de um diário de um sequestrado pelo Estado, uma reflexão que é um profundo grito de revolta contra a prisão.

“Os carcereiros querem subsídios de risco. E nós, presos e familiares, não deveríamos receber um subsidio de risco? Quem é que aparece enforcado nas prisões? São os presos. Quem é que constantemente morre nas prisões com sida, tuberculose, hepatite, leucemia, etc.? São os presos. Quem é que apanha graves doenças nas prisões? São os presos. Quem é que é espancado e torturado nas prisões? São os presos. Quem é que constantemente é induzido ao suicidio? São os presos. Quem é que aparece enforcado suspeitosamente? São os presos. Quem é que é submetido à alimentação insuficiente e miserável, e a maioria das vezes intragável, originando doenças? São os presos. Quem é que sofre negligência médica? São os presos. Quem é que ininterruptamente é humilhado e sofre inenarráveis atentados à dignidade humana? São os presos.

“Não quero subsídio nenhum! Exijo tão só o que o poder me roubou: a minha liberdade, inalienável, porque não passei procuração a ninguém, não deleguei em ninguém para que decidam por mim! Reclamo o que me pertence: a minha liberdade!” “(…)”

“A luta pela amnistia ou o perdão alargado que está a ser reivindicado formalmente é muito pobre comparado com o conteúdo da generalidade da revolta. Na constante revolta aberta estampada na cara -apesar das técnicas das coacções, da droga fornecida pelo Estado aos presos, sofisticados condicionalismos pavlovianos e draconianas represálias-, com  as contundentes invectivas contra a instituição prisional em si, é que está a bela poesia e riqueza desta revolta. A exigência não formalizada, mas profundamente sentida, é a recusa da prisão em si. Pena, esse tão natural sentimento de recusa da prisão em si, esse profundo ódio contra a prisão, constantemente manifestado com fortes invectivas contra a prisão e por gestos de acção directa -como  fogo às celas e constante automutilações, greves de fome, dolorosos gritos e outros actos-, ainda não ter sido suficientemente debatido para ser exigido com a expressão: “abolição da prisão” ou “prisão, abolição!”(como acontece, já há bastante tempo, nas prisões de outros países da Europa )!

“26 de Abril de 1996,

um sequestrado pelo Estado”